Pôquer de um homem só
Paulo Rebêlo
Se o homem nasce só e morre só - como pregava Aristóteles - então por que as pessoas vivem com medo de viver só?
Todo
santo dia a gente escuta os homens reclamando que não aguentam mais as
esposas e as mulheres que não encontram mais maridos.
Enquanto
uns têm medo de largar o osso, outros esquecem de viver porque passam a
vida inteira esperando o osso sagrado cair do céu.
Em ocasiões assim, sempre imagino Aristóteles, Nietzsche e Milan Kundera numa mesa de pôquer do além.
Queria ser apenas o dealer. Distribuo as cartas e recolho os argumentos em forma de apostas. Ou apostas em forma de argumentos.
A
aposta é simples: de Aristóteles (384 a.C - 322 a.C) a Kundera (1929
-), quem é capaz de encontrar alguém que viva a vida sem querer
encontrar outro alguém para não ficar sozinho no mundo?
Porque
quando sete bilhões de pessoas no planeta nascem programadas para viver
em função desta única busca durante toda sua existência, talvez seja
hora de pedir parada, pagar a conta e se enforcar com o fio dental.
Dobremos a aposta.
De
Aristóteles para cá, se durante todo esse tempo a vida inteira das
pessoas se resume apenas a encontrar alguém para dividir as contas da
casa e fazer menino, então por que a gente precisa pedir perdão pelos
pecados, fazer planos de carreira, conhecer lugares diferentes, aderir
ao PDV ou comprar livros achando que vamos aprender algo de novo se já
sabemos exatamente onde isso tudo vai parar?
Nietzsche (1844 - 1900) é o primeiro a apostar tudo. All in.
Ele não tem muito cacife, estava morto quando os produtores do Battlestar Galactica escreveram
os diálogos finais do seriado. Maquiaram o conceito de eterno retorno
(Ewige Wiederkunft) sem dar nenhum crédito ao coitado. Tudo que acontece
hoje no universo já aconteceu antes. E irá acontecer de novo. E de
novo, ad infinitum.
Logo,
qualquer expectativa de dar um sentido à busca pela outra metade da
laranja começa a perder o sentido se daqui a outros 200 ou 2000 anos
vamos continuar procurando a mesma coisa. As mesmas pessoas, com as
mesmas frustrações e esperanças.
Com
as fichas coloridas de seus 2300 anos de observação, Aristóteles não
vai dobrar a aposta, vai apenas cobrir a de Nietzsche e pagar para ver.
Porque, para Aristóteles, o homem que vive só ou
é um deus ou é um bruto. Simples assim. Mais jovem dos três, Kundera
solta um sorriso de insustentável leveza e dobra a aposta de Nietzsche e
Aristóteles.
Se
o eterno retorno nos mostra que tudo isso já aconteceu antes e vai se
repetir, toda esta incessante busca por alguém para dividir os sonhos
será sempre insustentável sob qualquer ângulo. Sobre nós e sobre os
outros.
Passar
a vida querendo achar uma pessoa para dividir a louça suja é de um
egoísmo tremendo. Ao mesmo tempo, passar a vida só, sem buscar nada,
aparentemente pode se transformar em egoísmo tão grande quanto.
Se
Kundera ganha esta mão no pôquer, tudo que a gente faz de bom ou mau
igualmente não tem sentido se não houver outra pessoa para compartilhar a
dúvida conosco. Mas, se tudo é insustentável, de que adianta insistir
tanto se estamos sempre fadados ao fracasso já que tudo irá se repetir
ad infinitum?
"Ao
fracassar, você vai tentar novamente achar outra pessoa para preencher a
lacuna. E de novo. E de novo...", responderia Nietzsche, olhando para
as próprias fichas e coçando aquele bigodão gigante.
A não ser, é claro, que Kundera esteja blefando.
Alguém bate na porta do cassino.
É
Albert Camus (1913 - 1960). Ele acabou de brigar (de novo) com Sartre
(1905 - 1980), recolhe todas as fichas, bota uma garrafa de bourbon
envelhecido na mesa, acaba com o jogo e suspende a festa dos vovôs.
Trouxe um recado.
A
sociedade lá fora está nos dizendo que se a gente não viver para
acasalar e procriar, o mundo vai acabar. Daí veio a briga sensorial com
Sartre, este homem que pregava mil existencialismos e mil poligamias,
mas nunca desgrudou da Simone de Beauvoir. Deve ter morrido é de ciúmes.
Para Camus, esse pôquer é um blefe.
Enquanto
uns dizem que se não batizar a criança ela não vai para o céu, outros
dizem que no céu tem 76 virgens nos esperando de pernas abertas. Já que
fui batizado (mesmo sem me perguntarem), então se hoje eu me converter e
me alistar no jihad, terei direito a pelo menos uma ou duas dessas
virgens aqui na Terra?
Só
depois dizem que é simbólico. Veja bem, que virgem se tornou uma
entidade meramente simbólica, só quem não sabe ainda é o Aristóteles do
alto dos seus 2300 anos. Mas se é simbólico, por que a suposta Maria
teve um filho e continua virgem até hoje, dois mil anos depois? Ai de
quem questionar isso. Será excomungado.
Excomungado de quê, de quem ou de onde, só um deus sabe. Ou um bruto.
A este ponto do devaneio, poucas pessoas sobraram no cassino e eu também começo a me retirar.
Não
sou iluminado feito a Elba Ramalho que fez contato com alienígenas e
abraçou Jesus Cristo. Nem feito a Xuxa que vê duendes debaixo do lençol e
jura de pés juntos que a filha é um anjo celestial (além de atriz).
Tampouco sou cientista político feito a Sandy - que descobriu qual é o problema do Brasil (no twitter).
Mas tenho cá algumas fichas coloridas para apostar com esses gaiatos do além.
Vi
o sol nascer e se pôr no Meridiano de Greenwhich, no Paralelo 14, na
Terra do Fogo, em terras do extremo oriente, no meio do oceano, na beira
do Deserto do Saara, no alto de montanhas (pequenas) que escalei, dentro de cavernas que me perdi e até em campo de concentração transformado (pelos judeus) em museu.
Quase
congelo meu pinto a 20 graus negativos perdido entre a Polônia e a
Eslováquia, quase viro vapor de gordura a 49 graus Celsius dirigindo
numa estrada de barro em Mato Grosso, perto do fim do mundo e na
encruzilhada onde Judas perdeu as botas.
Por
pouco não causei um incidente diplomático na Romênia durante o
impeachment do presidente Traian Basescu, quase sou preso no norte da
África, quase bato as botas um sem número de vezes, perdi a conta de
quantos defuntos já vi do meu lado e, embora não tenha participado da 2ª
Guerra Mundial, quase viro pasta de queijo roquefort debaixo de um
tanque de guerra com neonazistas de coquetel molotov em mãos.
E achei tudo igual.
Diferente mesmo, só o barulho do peido que soltei.
Fez sentido na hora, talvez o vício da adrenalina; mas na hora seguinte não fez mais sentido algum.
Aristóteles vai me dizer que sou um bruto, porque aparentemente não podemos ser o deus da nossa própria vida.
Nietzsche
vai coçar o bigodão novamente e dizer que nada faz mesmo sentido (a fé
no absurdo) depois que você entende o eterno retorno e todas essas
repetições - nossos pais, nossos avós, bisavós e 2300 anos de uma
história tão rica, com pessoas tão pobres.
Kundera
vai dizer que o sentido é insustentável porque, em todas as ocasiões,
não havia a pessoa certa do meu lado para compartilhar a experiência.
Não sei se porque ela se foi ou porque pegou o trem das onze.
Camus vai recolher todas as fichas e apagar a luz.
Para
ele, você só descobre esperando outros 2300 anos ou morrendo. Se você
esperar, talvez não encontre nada. Se você morrer, ninguém garante que
vai encontrar coisa alguma. Seja o eterno retorno, o paraíso cristão com
os anjinhos tocando harpa, o nirvana de Buda, as 76 virgens de Maomé ou
um inferninho heavy metal com diabinhas ninfomaníacas vestidas de couro
vermelho.
Ninguém quer mesmo saber. Uma parte vai voltar para casa porque está na hora da novela ou de levar a criança para escola.
Outra parte vai continuar buscando. E uma minoria vai continuar perguntando.
Talvez agora no carnaval eles encontrem uma resposta de que o único sentido é aproveitar enquanto se pode pular muito sem enfartar, ano após ano. Tudo outra vez.
Até porque, não é sempre assim desde que você nasceu?
Ou é um blefe ou um Royal Street Flash.

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